28/11/06 - APRESENTAÇÃO DA 22ª Edição do Manual ELEMENTOS de CONTABILIDADE GERAL
Rogério Fernandes Ferreira
Começo estas considerações lembrando quem terá escrito mais livros e artigos de Contabilidade em Portugal.
De longe, foi o Professor Gonçalves da Silva. Autor de vasta obra de contabilidade, com livros e artigos sobre História da Contabilidade, coordenação de teorias e doutrinas, divulgação de outros autores e obras sobre variados temas e sobre várias disciplinas de Contabilidade - Teoria da Contabilidade, Contabilidade Geral, Contabilidade Industrial, Contabilidade Agrícola, Análise de Balanços, Contabilidade das Sociedades.
Escrevi sobre Gonçalves da Silva que ele é um Mestre ainda actual; investigador profundo, lúcido, pensador, pedagogo; um professor íntegro e de total independência; um homem sábio, um homem culto, um metodólogo, um cientista, ao serviço da contabilidade.
Um outro autor de língua portuguesa, de cidadania brasileira e portuguesa é o Professor Lopes de Sá (não digo foi porque está vivo, lúcido e com uma capacidade de realização e cultura geral. Escreveu mais de cem livros e milhares de artigos).
Às vezes indicam que eu tenho obra vasta de Contabilidade. Ora, nem tanto quanto se diz. Fui durante pouco tempo professor de contabilidade. Estive muitas vezes dela afastado. Impedimentos legais, outras obrigações profissionais ou até sentimento de não ser desejado conduziram-me a ausências, renúncias, travessias no deserto. De renúncia em renúncia, a velhice foi-me chegando (e eu chegando ao fim, como terminava canção brasileira de sucesso de há 50 anos).
No rigor, apenas fui assistente de contabilidade de custos e apenas durante seis anos lectivos. Escrevi então um livro útil mas que não aparece em bancos de dados ou em lado algum - gostaria de adquirir esse meu livro (Casos de Contabilidade Industrial) para oferta a meus filhos e amigos queridos.
No meu tempo, fazer um livro era tarefa solitária e os professores eram poucos. Quando dei aulas na Universidade, nos primeiros tempos, um professor de dada disciplina era apenas um. Hoje, os professores de cada disciplina são dezenas e as escolas superiores de ensino de Contabilidade em Portugal são centenas.
Os colegas António Borges, Azevedo Rodrigues e Rogério Rodrigues trabalharam em equipa, fazendo o magnífico manual de que se anuncia aqui, hoje, a 22ª edição, celebrando-se igualmente um quarto de século desde a 1ª edição.
Conheço os autores e dois deles (o António Borges e o Azevedo Rodrigues) foram meus alunos em Mestrado de Gestão em que fui encarregado de dar a disciplina de Gestão Financeira.
Os meus distintos colegas e meus alunos no Mestrado de Gestão pertenceram a uma turma de excelência, uma turma das melhores que já tive. Todos sobressaíam na inteligência, eloquência, capacidade de aprendizagem. Eram todos competitivos, ambiciosos, digo-o no bom sentido destas adjectivações. Do António Borges ficou-me uma imagem muito particular de uma sua brilhante e imaginosa exposição sobre o tema do valor da empresa. As coisas que nos marcam são as que jamais esquecem. Depois disso tenho continuado a filosofar sobre valor, valor contabilístico, valor da empresa, criação de valor, etc.
Do Azevedo Rodrigues também acompanhei a sua brilhante carreira até agora. E muita consideração e respeito tenho também pelo Rogério Rodrigues., mas não aconteceu contactarmos muito.
Voltando ao livro que em equipa escreveram e que atinge agora 25 anos, 22 edições, sempre actualizadas, sempre utilíssimas, sublinha-se que se venderam mais de 150 mil exemplares. Eu, que também tenho escrito livros, digo-vos que, geralmente, não passei da 1ª edição.
O convite que a Areas Editora e os autores me dirigiram para estar convosco sensibilizou-me. Disse logo do meu muito gosto em estar nesta sessão alusiva ao lançamento do livro. Ao ler o prefácio dos autores verifiquei que eles agradecem, publicamente, sugestões que receberam às edições anteriores. Fiz uma leitura e darei conta das minhas primeiras observações aos autores. Entretanto, afirmo que se trata de um excelente manual, que preenche muitíssimo bem os fins a que se destina - fazer ensino superior de contabilidade, formação profissional. É um trabalho muito completo, exaustivo, minucioso, exigente, útil.
O convite para estar aqui com o Senhor Secretário de Estados dos Assuntos Fiscais, Dr. Amaral Tomáz, meu amigo e dosautores, que está aqui nesta qualidade e não a título oficial. O convite também me propicia o ensejo de estar com o Senhor Presidente da Comissão de Normalização Contabilística (CNC), colega Coelho Garcia com quem trabalhei já lá vão cerca de vinte anos - o tempo passa, a memória esvai-se.
Fui na verdade também Presidente da CNC embora durante muito pouco tempo. Abandonei o cargo exactamente porque em má hora fiz um comentário a trabalho da CNC que tinha sido discutido em sessão anterior e aprovado por todos, inclusive por mim. A minha dedicação à contabilidade levou a que, tendo havido umas férias de Carnaval e eu não brinco ao Carnaval, aproveitei a época para remeditar e aproveitar sugestões de alterações do já aprovado. Vi então cair sobre mim o Carmo e a Trindade.
Um colega da CNC invectivou-me com uma violência terrível - declarou que eu era uma pessoa indigna, visto, após aprovar um trabalho, ter o desplante de propor alterá-lo. Nenhum colega da CNC entendeu que eu procedia bem ao procurar alterar algo que já estava decidido. Fui um vira-casacas.
Deste mau julgamento da minha pessoa não me esqueci. Aceitei o veredicto, reconhecendo que ninguém se pode considerar bom juiz em causa própria. Dada a razão dos meus colegas da CNC recolhi a lição. Desde então evito ao máximo comentar trabalhos realizados. Eu que até dizia antes que só se pode comentar o que existe. Agora tenho presente que é injusto criticar o que se faz. Os que merecem críticas são os mandriões, os que não fazem.
Porém, por amizade ou simpatia, os colegas, autores do livro, pediram-me para vos falar do seu manual de contabilidade. Não tive nele mínimo papel, nem sequer de inspirador. Direi que tenho pena de não ter colaborado e pelo seguinte:
É que estamos a celebrar um feito talvez inigualável em contabilidade em Portugal. Estamos a comemorar uma efeméride notável - já se venderam mais de 150 mil livros das edições passadas.
Faço uma comparação - a minha produção diz-se que é grande - publiquei 50 livros mas o certo é que apenas se venderam, em média, de cada livro que publiquei, 500 exemplares. Vejam que assim, no todo, só divulguei 25 mil exemplares, ou seja, o equivalente a 1/6 das vendas dos meus três colegas e como tenho 50 anos de actividade, o dobro dos colegas, o meu score fica em 1/12 do deles.
Mais notável ainda é que os meus leitores foram sempre os mesmos - 500 leitores - enquanto os meus colegas tiveram mais de 150 mil leitores difrentes, do livro de que estamos a celebrar a 22ª edição e 25 anos desde a 1ª edição. Não direi que é livro de 25 gerações de leitores mas direi que é de 25 camadas sucessivas de leitores, uma camada de leitores cada ano.
É obra. Faço já um pedido aos colegas autores: que em próxima edição, incluam uma paginazinha de texto meu, com indicação de minha colaboração ou autoria. Tenho prosa diversa, alguma formativa, outra informativa, por vezes controversa.
Nomeadamente a que deixo aos presentes(*) como mais uma recordação desta importante efeméride. É um pequeno artigo que publiquei por na ocasião da minha jubilação, com alusões à mais-valia ou à menos-valia, consoante se queira, que é atribuível à experiência, à idade. Esta polémica recrudesce agora com a renhida eleição para a Presidência da República de dois grandes veteranos de Política (um sexagenário e um octogenário).
Fico-me por aqui. Com um grande abraço de estima e admiração aos colegas que merecem tão justa homenagem e votando para que continuem a brindar gestores, contabilistas, revisores, fiscalistas, com o seu empenho na publicação das suas lições por mais 25 anos, pelo menos.