Para mim é um prazer estar aqui e falar um pouco dessa questão do Brasil... do país em que a gente vive.
O Brasil vive um momento muito especial. Está se falando basicamente de um país que está crescendo, inflação sob controle, petróleo, Copa do Mundo, Olimpíadas. Então está todo mundo muito animado com relação às perspectivas do Brasil. Parece que só tem notícias boas.
Eu queria só fazer, não um contraponto, porque acho que eu também sou otimista e acho que as coisas devem caminhar bem; mas falar um pouco sobre como é que a gente encara essa situação de “irmos bem” num país que “vai mal”. Eu acredito que não dá para irmos bem, indefinidamente, num país que vai mal.
Eu estava em Madri na semana passada – eu sou presidente do Grupo Santander aqui no Brasil e, no domingo, o cara vem me trazer um encarte do jornal El País, que é o jornal mais importante de Madri, que falava sobre a questão da violência nas favelas no Rio de Janeiro. E eu fiquei envergonhado daquele negócio. Como é que pode a gente conviver com tudo isso? Como é que a gente fala tanto de um país que vai bem e deixa uma grande parte da população por detrás?
Eu sempre tive para mim muito claro que não dá para irmos bem num país que vai mal. Blindar carros, subir muro não vai resolver o problema. Ou a gente traz todo mundo juntos, ou isso aqui vai ser um problema lá na frente.
E na mão de quem está isso? Quer dizer, o quê as empresas e pessoas podem fazer para isso? Eu costumo dizer que importa sim o que você faz no dia a dia. Eu falo primeiro de empresas, depois de pessoas, mas misturar um pouco os dois obviamente. Importa o que você faz no dia a dia.
Eu dava como exemplo, para chocar todo mundo, que tem traficantes na verdade que cuidam de favelas, de idosos, de creches. Mas isso não os transforma em cidadãos com responsabilidade social. Porque o que ele faz no dia a dia é uma coisa de marginal, portanto o resto não importa mais. Eu acho que isso vale para as organizações também.

Lógico que o país tem carências, lógico que tem que ter programas assistenciais, eu não sou nada contra isso. Mas sou muito a favor de “O que você faz no dia a dia?” O que você faz no dia a dia está agregando valor? Você está fazendo algo que de fato está de alguma maneira construindo para que a gente possa ter um país melhor? E acho que esse é o ponto que pegou um pouquinho na introdução que foi feita aqui.
Na questão de que trabalho em banco, então vamos fazer as perguntas de banco.
Eu tenho algo a ver com o fato de que uma empresa para a qual eu fiz um empréstimo está causando um dano no meio ambiente, ou não é problema meu?
Eu devo contratar empresa que cobra menos, independentemente dela pagar imposto ou não? Ou eu estou preocupado em saber se a empresa, no fundo, está ou não está pagando imposto?
Eu estou preocupado com a situação dos meus FORNECEDORES? Dos meus FUNCIONÁRIOS? Com DIVERSIDADE? Ou o meu negócio é lucro?
Bom, a gente pôs na cabeça o seguinte: importa sim como você constrói o seu resultado. Você vai agregar valor. Mas você precisa fazer a coisa levando em consideração o impacto que se causa em tudo que você interage.
Primeiro foi o meio ambiente.
Foi curioso até, porque o primeiro exemplo que me surgiu, até que não foi dos mais difíceis, era uma empresa de pesca de camarão, predatória. “A gente deve trabalhar com isso ou não?” Eu não entendo nada disso, mas imagino que uma empresa que faça alguma coisa predatória, com o passar do tempo, não poderá mais fazê-lo. “Então, como é que eu vou emprestar dinheiro para essa empresa?
“Então vamos colocar a empresa para fora?” Não. E se fôssemos lá conversar? E fomos lá conversar. E no fim financiamos um oceanógrafo – eu não entendo nada desse assunto, mas ele entendia – para ver como é que você poderia fazer uma coisa diferente e que fosse sustentável no sentido de que ela pudesse continuar com aquela pesca por um período muito grande. E conseguiu fazer isso. E todos saíram ganhando.
A empresa, porque vai ter uma perspectiva de negócio muito melhor; o banco, porque fez uma operação com a empresa, e quem gosta de camarão porque vai poder comer camarão por mais tempo, porque foi mudada totalmente a maneira de se trabalhar.
Isso pegou muito forte dentro do grupo.
Então, primeiro fomos olhar, o que a gente faz dentro de casa? Banco não é exatamente uma indústria que polui. Então, o que a gente faz em relação ao MEIO AMBIENTE? E em relação ao SOCIAL? E a questão da EDUCAÇÃO FINANCEIRA? O que nós estamos fazendo? Como é que a gente trabalha? Então fomos trabalhar todos esses aspectos para depois podermos falar com nossos clientes.
Mais um exemplo super presente. Aliás, interessante, porque hoje de manhã eu estive mais cedo na GV, fazendo uma palestra para 120 estudantes de vários países do mundo, num programa chamado “One MBA” falando justamente sobre essa questão de compatibilização de ética nos negócios. De colocar de lado essa questão do falso dilema: “Ou você faz negócios, ou você respeita o meio ambiente, a sociedade, tudo o mais. Os dois não dá, sabe como é que é.” Vou voltar já já a falar sobre isso. Vou dar um outro exemplo aqui.
Uma empresa de motoboy. Esse é um exemplo bem marcante. Morre um motoboy por dia em São Paulo. Banco é responsável ou não? As empresas onde vocês trabalham, ou com as quais se relacionam, elas são responsáveis por isso ou não?
As pessoas falam: “Isso não é problema meu, eu não tenho nada a ver com isso, nem sei como e que funciona.” A outra atitude é saber: “Eu acho que somos responsáveis, sim.” Acho que é muito cinismo falar: “Eu não tenho nada a ver com isso, e deixa lá, se morrer, morreu.” O que a gente fez?
Fomos falar com uma empresa chamada Help Express, uma senhora chamada Ione, que, contra todos os que trabalham nessa indústria de motoboy, ela começou a treinar o motoboy. Melhorou a qualidade do equipamento, treinou as famílias, e, pasmem, reduziu a zero o número de acidentes e entrega mais rápido do que as outras. Por que?
Porque provavelmente, se você trata bem o motoboy, dá condições, tem-se uma recíproca dele, para também dar a qualidade, o melhor dele para que aquele negócio se viabilize. Poderia ter tido a atitude de que “não é problema meu”.
Outra empresa prestava serviço, cobrava mais barato, depois descobrimos que não pagava impostos. Pergunta: “O banco tem algo a ver com isso ou não?”
Não quero entrar no aspecto legal, que é uma outra discussão. No aspecto MORAL. Tem algo a ver? Minha conclusão foi a seguinte: Se nós precisamos disso para viabilizar o banco, nós temos algum problema. Não é possível. Eu não quero mais saber de contratar pessoas que não tenham exatamente essa visão de como se relacionar com a sociedade. Inclusive com relação ao meio ambiente, à questão social, à questão da diversidade.
E a gente conseguiu trazer uma série desses exemplos para o dia a dia. Dentro da idéia de que se falava a pouco, da transparência. Eu acho que o mundo agora, mais do que nunca,e este evento é mais um exemplo disso, não tem “on” e !off”. Você está “on” o tempo todo. Tudo o que você faz deve ser visto como parte da construção de uma visão maior, de uma imagem, de um trabalho, de um impacto que você causa.
Então, não adianta ficar com essa idéia de que só o que você está mostrando para a pessoa é o que ela vê. Ela está vendo muito mais.
Todos os mecanismos, todas as tecnologias novas... O que eu recebo de e-mails diretamente de clientes, de funcionários, de fornecedores com críticas. E críticas boas. ‘Você falou isso mas, no seu banco, acontece aquilo”. É ótimo, tem 50.000 pessoas, deve ter de tudo lá dentro. Costumo brincar que deve ter até alguém normal.
Eu não vi ninguém normal até agora, mas deve haver. Nem mesmo quem vos fala é normal, mas deve ter alguém que é normal. Tem tudo, é lógico. Aquilo é uma síntese de um pouco da sociedade que a gente tenta melhorar.
Mas a questão é – o fato de eu não ter resposta, o fato de eu não saber fazer, não quer dizer que a pergunta não está lá, que a intenção não esteja lá.
O que estamos fazendo com o tempo é ver se muda um pouco essa mentalidade. Eu falo sempre que não é apenas um banco melhor, mas um mercado melhor, um país melhor.
Como é que a gente articula tudo isso, de maneira que a gente possa ter concretamente exemplos que apontem na direção daquilo que você entenda que deve ser feito?
Banco tem suas peculiaridades, mas todas as empresas têm alguma coisa a ver.
Questão de fornecedores, questão de como é que você se relaciona com a questão da diversidade. Diversidade, vamos dar oportunidade para todo mundo ou não vamos?
Deve ter cotas? Devo forçar, não devo forçar? Como é que a gente lida com esse problema? Eu costumo dizer que a diferença faz a diferença. Não tem nada melhor do que você ter um problema sendo visto por pessoas com pontos de vista diferentes. Que permita a você ter a melhor visão daquilo.
Mas, eu descobri que o maior problema na questão de diferenças, de diversidade, não é a questão racial, não é a questão de condição física, orientação sexual. É questão do pensamento. Como as pessoas são pouco tolerantes com alguém que não pensa como elas.
E como são inteligentes as pessoas que pensam como nós pensamos. Isso é uma coisa impressionante. E como é ruim você no fundo se cercar disso, se cercar dessas pessoas. Como é ruim para o grupo ter essa visão única de como é que você se relaciona com pessoas que não têm condição de ter o controverso, de crescer.
Então eu acho que o que estamos falando, é justamente disso. De ter as perguntas certas, de trazer as perguntas para o dia a dia. Como é que você faz isso? Como é que você incorpora isso na empresa? Eu costumo dizer que a idéia do giveback que os americanos têm, que é basicamente “passar a caneta no cheque e a borracha na consciência” não é o caminho. O caminho é fazer o certo e, depois, obviamente, em função de uma sociedade carente como é a nossa, ter sim os seus programas. Mas baseado também naquilo que você faz no dia a dia.
Isso é empresa. E nós, como INDIVÍDUOS? Quer dizer, como é que funciona? Como é que eu entrei nessa? Por que eu peguei um sábado de manhã e estou aqui? Estive na FV.
É um pouco essa causa, essa visão. Eu acho que a gente tem que ter um referencial de que, no Brasil, você pode ter sucesso sem transigir. Isso é uma coisa que eu passei na vida inteira. Estava lembrando ainda nessa palestra da GV, - eu estudei na GV, e também no colégio que eu fiz antes – que sempre tinha esse negócio de você... mudou muito, a geração de vocês já é diferente.
Mas, costumo dizer que se a nossa geração não deixou um mundo melhor para os nossos filhos, vai deixar pelo menos filhos melhores para o nosso mundo. Acho que vocês vão fazer um trabalho melhor do que a minha geração fez.
Mas era comum chegar na escola e tinha uma prova e daí: “você estudou?”, e o legal era responder: “Não. Não estudei, fui no jogo, fui no cinema”,meio blasé. Sempre dar um jeito de passar sem estudar, sem fazer muito. O cara que estudava certamente não tinha aceitação social, era solapado, a expressão... me desculpem aqui... um “CDF” nada mais é do que trazer para baixo quem tá lá em cima. Para ver se deixa todo mundo medíocre e “vamo-que-vamo”.
Eu fui estudar no exterior e aconteceu um episódio muito marcante para mim.
Cheguei lá, um dia aparece um suíço, tinha que ser um suíço, queimado. E tinha uma prova. Daí um americano perguntou para ele assim: “Você estudou?”, ele falou: “Eu não, fui velejar.” E eu estou ouvindo esse diálogo, e falei. “Se fosse no Brasil, o cara seria um herói aqui.”
“Você é louco”, o americano falou, “você é louco.” Tem uma prova hoje, você foi velejar!”
E fiquei pensando, a inversão de valores que temos aqui. Essa questão da valorização daquele que consegue alguma coisa através de um atalho sem que tenha colocado na mesa o esforço que dele se espera. E isso me marcou muito.
Quando voltei para o Brasil, fui dar aula – dar aula para falar um pouquinho sobre esse negócio de ética – fui dar aula... para vocês deve ser um choque isso aqui – sobre futuros e derivativos, que é um negócio que o pessoal diz: “Que que é isso?!”. E era muito associado sempre com manipulação.
Então, no meio da aula, alguém levanta a mão para mim e fala: “Professor, mas a gente não pode usar esse tipo de instrumento financeiro para evitar imposto de renda, para forçar a valorização de um preço ou outro?”
Me caiu uma coisa e falei: “Olha,isso é o mesmo que perguntar a um professor de auto-escola se você pode matar alguém com o automóvel.
A resposta é sim, mas por isso temos uma série de ensinamentos, autorizações, educação na verdade, para que você aprenda a lidar com automóvel, que pode sim causar grandes estragos se mal utilizado, assim como é também a questão de instrumentos financeiros.
Mas eu não estou aqui para ensinar isso, eu estou aqui para ensinar como se fazer um bom uso, MELHORAR A GESTÃO FINANCEIRA, e portanto, agregar valor à sociedade pelo bom uso desses instrumentos.”
E me caiu essa ficha, também nesse dia, somando tudo, de que a gente deveria falar mais sobre essa questão de ser uma referência. De ter menos vergonha de falar que o que nós estávamos fazendo estava agregando valor à sociedade e que estávamos fazendo sem transigir.
E que estava tendo e, no caso, acabei sendo promovido para Presidente do, na época, BNA-Banco Real.
E falei assim, vou começar a falar um pouco mais, porque sempre fica a idéia e eu sei que tem, e deve ter num grupo desses também, sempre tem alguém que pensa: “Alguma coisa fez, que a vida não é assim, sabe como é que é no Brasil.”
Pois eu comecei a adotar esse negócio que a coisa não é assim mesmo e não precisa ser assim mesmo, se a gente não quiser que seja assim mesmo. Mas está nas nossas mãos.
É importante lembrar que é no dia a dia das atitudes.
Tem um filósofo americano, Ralph Emerson, que fala: “Suas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz.” E isso balizou minha vida.
É o que você faz no dia a dia.
Acho que nós temos no Brasil uma tolerância com relação a pequenos delitos.
Uma tolerância, até uma leniência no vocabulário. De chamar “informal” um tipo de atividade econômica que tecnicamente é ilegal, e acho que teríamos muito mais coercitivo se entendêssemos que são ilegais algumas coisas, não são apenas atividades informais.
Para que a gente coloque todo mundo numa mesma página e que a gente possa ter... Falo que a gente tem uma mania também de ficar sempre olhando para o governo.
Eu faço questão nessas palestras de não falar uma coisa do governo. Está nas nossas mãos.
O Brasil precisa sim de reforma de: previdência, trabalhista, fiscal, tributária...
Mas a mais importante é a reforma de valores. E reforma de valores não é o governo que faz.
Somos nós, no dia a dia, na nossa atitude diante de um problema, diante de uma dificuldade, diante de uma multa de trânsito, diante de uma multa de um fiscal. Como é que você reage aquilo? O que você faz? O que você dá como exemplo?
Eu não sei definir ética, também nem quero. Eu sou muito pouco filosófico, e costumo dizer que ética é fazer a coisa de uma forma que você possa conversar a noite com os seus filhos à mesa da sala de jantar. Se pode conversar, provavelmente o que você fez foi ético, foi transparente.
Mas eu acho que essa idéia de que a sociedade em que nós vivemos não é indissociável de nós. Ela é sim a somatória do que cada um de nós fazemos no dia a dia.
Sociedade não existe: ela é simplesmente a somatória do que eu faço, do que ela faz, do que ele faz... Cada um faz uma coisa, e a somatória disso dá a sociedade que somos no Brasil.
Eu queria só terminar, e a mensagem que eu queria passar é que o Brasil será o que dele nós fizermos. Não existe outra coisa.
Não está sendo terceirizado que o governo faça, para que a gente fique do lado de cá, mas sim para que nós nos mobilizemos.
Eu lembro, e dou sempre este exemplo também, que a gente está evoluindo muito como consumidor.
Lembro que o meu pai, há muitos anos atrás, comprou um liquidificador na saudosa Casas Mapping. E daí fomos lá, eu e ele, porque o liquidificador não tinha funcionado. E o cara falou assim: “Olha, o Sr abriu a embalagem, agora não dá mais para trocar o liquidificador.”
Meu pai ficou louco: “Como é que você queria que eu soubesse que ele não funcionava antes de abrir?”
“Ah, mas o Sr abriu, eu sinto muito, agora o problema é do senhor.”
Era assim que era tratado um consumidor no Brasil, há 20, 25 anos atrás. Evoluímos muito. O consumidor – hoje não preciso dizer – você vai lá, troca o produto, recebe o dinheiro.
Isto é uma evolução que vocês não percebem, porque muitos de vocês mais jovens não viram como é que a coisa começou.
Daí, passou a ser também uma coisa de consumidor de serviços. A gente entender que em serviços, que é menos tangível, que eu não sei se funciona ou não funciona; se eu fui bem atendido num restaurante ou num banco. Mas o liquidificador você sabe.
E as pessoas estão começando a reclamar, o que eu acho ótimo. Aliás, só reclama quem tem auto-estima e acha que merece alguma coisa melhor do que aquilo que foi dado.
Mas nós não evoluímos ainda como consumidor de cidadania.
A gente continua votando, continua pagando imposto. Mas como se fosse uma coisa distinta, nos colocamos, confortavelmente, na posição de “fica aqui” com uma série de pequenos delitos, e criticando os que estão lá, como se fossem coisas dissociadas.
Temos: 1. que entender que a somatória das nossas atitudes é que faz o que está lá; e
2. que nós temos que nos conectar, porque somos nós que pagamos com votos ou impostos aqueles que estão lá.
Então, essa idéia de que o Brasil vai ser o que dele nós fizermos. E se nós queremos, de fato, mudar o Brasil, eu acho que o mais importante é lembrar da frase de Ghandi que dizia, nós temos que ser a mudança que queremos ver no mundo.

Muito obrigado, essa é a mensagem. |